Explodindo Janelas
Estava tão concentrada no quadro antigo da sala que saltei
ao ouvir a voz do garoto.
-Desculpa, te assustei?
-Não, eu estava distraída, sou eu sim e você é?
-Joseph
-Legal o nome
-É, mas não quero falar disso
Garotinho estranho, do que será que ele quer falar?
-Está vendo esse quadro?
-Sim, o que tem ele?
-O que você vê?
-Uma mulher de cabelos negros e longos vestida de noiva e um
homem de terno, cabelos compridos e brancos
-É, você ainda vê ele normalmente
-Como assim?
-Não adiantará em nada contar, você vai descobrir, só se
você nunca tenha feito nenhum jogo ligado ao inferno, e se não fez irá fazer
-Por que isso?
-Todos os que entram nessa escola são incentivados por algo
oculto a jogar algum jogo macabro ou nos piores casos, fazer pactos
Eu ri.
-Está brincando né?
-Você vai ver que não, não vai demorar
Então o garoto some por entre as crianças.
Peguei minha mochila e fui para o centro em busca de
materiais para reformar meu quarto.
No meio do caminho deparei com uma garota com um vestido
preto, pele pálida, cabelos longos e negros e uma cruz invertida no peito. Ela
me encarava de forma assustadora, sua maquiagem estava borrada e ela parecia
chorar.
Passei reto, pode ser alguma gótica da cidade, mas se tem
góticos nesse lugar então está muito evoluído para um fim de mundo.
Centro? Se houver mais que dez lojas nessa cidade é demais.
Fui até a ferrovia, iria até a cidade mais próxima para
fazer minhas compras.
Claro que eu não poderia fazer isso, mas menti que iria
trabalhar o sábado inteiro então pude sair.
***
Já era noite quando peguei o trem para voltar para o
orfanato.
Na realidade é uma escola interna, mas a maioria não possui
família, e eu sou a única que não estuda no local, pois estou terminando o
ensino médio.
A estrada estava escura e eu voltava sozinha quando senti
algo me puxar.
-Você é a escolhida
Olhei aterrorizada para a mulher, a mesma que eu havia
encontrado de dia.
-Quem é você?
-Eu? Eu sou você
-Me deixe em paz
-Isso é algo impossível
-Me solte
A mulher me olhava nos olhos, comecei a sufocar, ela não
tocava em mais nada além de meu braço esquerdo. Mas algo nela me tirava o ar.
Estava prestes a desmaiar, até que um garoto alto arranca a
cruz invertida do pescoço da mulher e me pega no colo.
-ME DEVOLVA!
-SÓ SE DEIXAR A GAROTA PARTIR
-NUNCA!
-Então nada feito
-DEVOLVA-ME!
-A liberte e eu entrego
-MALDITO! LEVE A GAROTA, MAS ME DEVOLVA O AMULETO
O garoto joga a corrente na grama e sai correndo me levando
em seus braços.
-QUEM É VOCÊ? PRA ONDE ESTÁ ME LEVANDO?
-Primeiro segurança, depois as perguntas
Ele era alto, pele
pálida, cabelos negros até o pescoço e uma franja. Usava uma jaqueta de couro
preto, camiseta branca, calça jeans e coturno.
Então chegamos ao orfanato.
-O que fazia na rua essa hora? É perigoso
-Quem faz as perguntas aqui sou eu! Quem é você e como sabe
que moro aqui?
O garoto ri.
Eu podia ver agora o azul escuro de seus olhos e o lápis
preto contornando seu olhar.
-Me chamo Jason e sou o vizinho da frente
Olhei para a mansão do outro lado da rua, nunca havia
reparado, até agora.
-Fiquei sabendo que vai para minha escola
-Está sabendo demais, meu nome é...
-Taylor Morgan, a rebelde do orfanato
-Como sabe meu nome?
-Longa história, enfim, tenho que entrar, a gente se fala
segunda-feira
-Tchau
Fiquei observando Jason entrar em sua casa.
-Fazendo amizade com a vizinhança?
-Ah, boa noite senhora Miranda
-Não acha Jason um pouco estranho?
-Não, por que acharia?
-O jeito dele...
-Se vestir? Adoro garotos assim, pensei que aqui não
encontraria
-Se você diz... Entre, o jantar está servido
Esperei que Sra. Miranda entrasse primeiro e dei de cara com
um vulto.
Saltei de susto.
-O que há de errado Taylor?
-Nada, achei que havia visto um vulto
-Bobagem, está ficando louca como as outras crianças? Essas
coisas não existem
-A senhora tem razão
Jantei e subi até meu quarto.
Preparava-me para deitar quando achei uma caixa em cima de
minha cômoda.
A caixa era preta e tinha meu nome gravado na tampa.
Ao abrir, deparei-me com um tabuleiro de ouija.
Pensei em jogar, mas lembrei-me do que Joseph me falara,
então levei o tabuleiro até a lareira e o joguei lá para queimar, mas algo
estava errado, o tabuleiro não queimava.
-Droga
Peguei-o e tentei cortar, mas nada acontecia.
Então o coloquei dentro do alçapão de meu quarto.
-Taylor? O que está fazendo?
-Ah, oi Julie, nada de mais
-O que guardou aí?
-Nada
-Hum, coisas de adultos né?
-É, é bem isso, adultos
-Entendo
Julie sai do quarto, então ouço uma batida na janela.
-Jason?
-Oi, abre a janela
Abri a janela e ele entrou.
-Como subiu aqui?
-Faço escalada, é fácil
-Sei, e o que quer aqui?
-Vim ver como está
-Estou ótima
-Sei que não
-Por que eu não estaria?
-O tabuleiro apareceu pra você e não quer jogar, mas não
consegue resistir a vontade
-Não tenho vontade de jogar, mas como sabe disso?
-Conheço a história dos moradores daqui
-Você é estranho
Jason abre o alçapão e pega o tabuleiro.
-Vamos jogar?
-Como sabia que estava ali?
-Anda, quero ver se isso que dizem é real
-Por que quer que eu jogue?
-Porque não tem graça jogar sozinho, na verdade nem dá
-Eu não quero, tenho medo de me arrepender
Então ele levanta e me encara, seus olhos tinham o dom de me
tranquilizar.
-Sabe, pra uma gata sedutora como você, você é muito medrosa
-Não sou sedutora
-Você diz isso porque não sabe a forma como olham para você
-E você já está confiante demais falando assim comigo e
entrando no meu quarto pela janela, nem sei sua idade
-Se esse é o problema, tenho dezessete anos, e você?
-Dezesseis
-Gostei
-Por quê?
Jason chega mais perto de mim, não consigo me mover, mas já
sei o que pretende.
Eu estava sentada no chão e Jason estava prestes a me beijar
quando as luzes se apagam.
-O que foi isso?
-Acho que faltou luz, vou perguntar pra diretora
Levantei e fui até a porta, mas estava trancada.
-Está trancada
-Você tem a chave?
-Taylor
-O que foi?
-Olhe pra cá
Uma luz vermelha iluminava o chão do quarto, o tabuleiro
estava ali, pronto para um jogo.
-Você o colocou aí?
-Não
-Como não?
-Já disse que não Taylor, eu não me movi
Sentei em frente Jason, estava decidido, eu iria jogar.
Cada um pediu permissão para jogar e o espírito convocado
permitiu.
-Existem espíritos do mal aqui?
-Jason!
-Ué, é uma pergunta
O copo se move até o sim.
-Agora é você
-Por que eu?
-Faça uma pergunta
-Meus pais estão bem?
Nada aconteceu.
-Aff, essa porcaria não é real, nada a ver
-Faça outra pergunta então
-Alguém já morreu aqui dentro?
O copo se moveu até o sim.
-Quem?-perguntou Jason
Julie.
-Isso é mentira
-Por que diz ser mentira?
-Eu falei com essa garota várias vezes, a diretora falou
também, impossível
-Falando com gente morta haha legal
-Cala a boca!
-Vai ver não é a mesma
-Pode ser
-O que é preciso para fazer um pacto?
O copo forma a palavra sangue.
-Jason não brinca com isso
-Ah, é legal, podemos pedir qualquer coisa
-Não é legal e eu quero sair do jogo
O copo se move até o não.
-Me deixe sair
Não.
-AH QUER SABER, ISSO É UMA BABAQUICE!
Retirei o dedo do copo.
-NÃO FAÇA ISSO TAYLOR!
Então os vidros explodem, caio no chão e não vejo mais nada.


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